Allen Ginsberg - Uivo para Carl Solomon - Por Wescley J. Gama

Almanáará    Bio    Trovadores   Pantheon   Nóis   Dona Sophia   VAza-Barris    SAct-ça-Pererê  

P a n t h e o n

Allen Ginsberg

 

O  “Uivo para Carl Solomon”,  de Allen Ginsberg, foi lançado em 1956, marcando o começo do movimento beat na América,  uma nova maneira de ver e viver a realidade...a literatura e a música  nunca mais seriam as mesmas.


Capítulo:

Uivo para Carl Solomon (Howl)

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, 
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa 
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus Cérebros ao céu sob o
Elevados e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de
cômodos, que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra, que foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede. 

Que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York, que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam
terebentina em Paradise Alley, morreram
ou flagelaram seus torsos noite após noite 
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
álcool e caralhos e intermináveis orgias, 
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e
clarão na mente pulando nos postes dos
pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o
mundo imóvel do Tempo intermediário, 
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de
quintal com verdes árvores de cemitério, porre
de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na corrida
de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e
árvore no ronco de crepúsculo de inverno de
Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave
soberana luz da mente, 


que se acorrentaram aos vagões do metrô para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças
os trouxesse de volta, trêmulos, a boca
arrebentada e o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
zoológico, 
que afundaram a noite toda na luz submarina de
Bickford's, voltaram à tona e passaram a tarde de
cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando o
matraquear da catástrofe na vitrola automática de
hidrogênio, 
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque
ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu
à Ponte de Brooklyn, 
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando
dos gradis das escadas de emergência dos
parapeitos das janelas do Empire State da Lua, 
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e
lembranças e anedotas e viagens visuais e
choques nos hospitais e prisões e guerras, 
intelectos inteiros regurgitados em recordação total
com os olhos brilhando por sete dias e noites,
carne para a sinagoga jogada na rua, 
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum
deixando um rastro de cartões postais
ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City, 
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
nos ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de
Newark, 
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da
estação ferroviária perguntando-se onde ir e
foram, sem deixar corações partidos, 
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de
carga, vagões de carga que rumavam
ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro
da noite do avô, 
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz,
telepatia e bop-cabala pois o Cosmos
instintivamente vibrava a seus pés em Kansas, 
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos
índios e visionários, que só acharam que estavam
loucos quando Baltimore apareceu em êxtase
sobrenatural, 
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no
impulso da chuva de inverno na luz das
ruas de cidade pequena à meia-noite, 
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre América e Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram num navio
para a África, 
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando
além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas na
lareira Chicago, 
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de
barba e bermudas com grandes olhos
pacifistas e sensuais nas suas peles morenas,
distribuindo folhetos ininteligíveis, 
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco
do Capitalismo, 


que distribuíram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto
que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island, 
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trêmulos diante da maquinaria de
outros esqueletos, 
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer
nos carros de presos por não terem
cometido outro crime a não ser sua transação
pederástica e tóxica, 
que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos, 
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e urraram de prazer, 
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano, 
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na grama de jardins públicos e
cemitérios, espalhando livremente seu sêmem para quem
quisesse vir, 
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas
acabaram choramingando atrás de um
tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
atravessá-los com sua espada, 
que perderam seus garotos amados para as três megeras
do destino, a megera caolha do dólar
heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do
ventre e a megera caolha que só sabe ficar
plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios
intelectuais do tear do artesão, 
que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de
cerveja, uma namorada, um maço de
cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da buceta
final e acabaram sufocando um derradeiro
lampejo de consciência, 
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos
vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para
adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas
nos celeiros e nus no lago, 
que foram transar em Colorado numa miriade de carros
roubados à noite, N.C. herói secreto destes
poemas, garanhão e Adonis de Denver — prazer ao
lembrar das suas incontáveis trepadas com
garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas
fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha,
cavernas ou com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também, 
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror
dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam
até as agências de emprego, 
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de
sangue pelo cais coberto por montões de
neve, esperando que se abrisse uma porta no Bast River
dando num quarto cheio de vapor e ópio, 
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de
apartamentos do Hudson à luz de holofote
anti-aéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de
louro no esquecimento, 
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou
digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
rios de Bovery, 
que choraram diante do romance das ruas com seus
carrinhos de mão cheios de cebola e péssima
música, 


que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicêmbalos nos seus sótãos, 
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados
pelos caixotes de laranja da teologia, 
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer
amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem
sentido, 
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé
rabo borsht & tortillas sonhando com o
puro reino vegetal, 
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um
ovo, 
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance
de aposta pela Eternidade fora do Tempo &
despertadores caíram nas suas cabeças por todos os
dias da década seguinte, 
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes
seguidas, desistiram e foram obrigados a
abrir lojas de antigüidades onde acharam que estavam
ficando velhos e choraram, 
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de
flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o contido estrondo dos
batalhões de ferro da moda & os guinchos de
nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás
mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram
atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta, 
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isto realmente
aconteceu e partiram esquecidos e
desconhecidos para dentro da espectral confusão das
ruelas de sopa & carros de bombeiros de
Chinatown, nem mesmo uma cerveja de graça, 
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela
janela do metrô, saltaram no imundo rio
Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela
rua afora, dançaram sobre garrafas
quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos
discos de jazz europeu dos anos 30 na
Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no
toalete sangrento, lamentações nos
ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor, 
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando
pela solidão da vigília de cadeia do
Golgota de carro envenenado de cada um ou então a
encarnação do Jazz de Birmingham, 
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
horas para saber se eu tinha tido uma visão
ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido
uma visão para descobrir a Eternidade, 
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que
retornaram a Denver & esperaram em
vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente
partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa dos seus heróis, 
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando por sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse seu cabelo por um segundo, 

que se arrebentaram nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade nos seus corações que
entoavam suaves blues de Alcatraz, 
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou
as Montanhas Rochosas para o suave Buda
ou Tanger para os garotos ou Pacifico Sul para a
locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o
cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o
túmulo, 

que exigiram exames de sanidade mental acusando o
rádio de hipnotismo & foram deixados com
sua loucura & suas mãos & um júri suspeito, 
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e
em seguida se apresentaram nos degraus de granito do
manicômio com cabeças raspadas e fala de
arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata, 
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrasol choque elétrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue &
amnésia, 
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa
simbólica de pingue-pongue, mergulhando
logo a seguir na catatonia, 
voltando anos depois, realmente calvos exceto uma
peruca de sangue e lágrimas e dedos para a
visível condenação de louco nas celas das
cidades-manicômio do Leste, 
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
fétidos, brigando com os ecos da alma,
agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão
à meia-noite dos domínios de mausoléu
druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos
transformados em pedras tão pesadas
quanto a lua, com a mãe finalmente ****** e o último
livro fantástico atirado pela janela do cortiço e
a última porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a
última peça de mobília mental, uma rosa de
papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação — 
ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não
estarei a salvo e agora você está inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo — 
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados
por um súbito clarão da alquimia do uso da
elipse do catálogo do metro & do plano vibratório 
que sonharam e abriram brechas encamadas no Tempo &
Espaço através de imagens justapostas e
capturaram o arranjo da alma entre 2 imagens visuais e
reuniram os verbos elementares e juntaram
o substantivo e o choque de consciência saltando numa
sensação de Pater Omnipotens Aeterni
Deus, 
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados
todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo
do pensamento na sua cabeça nua e infinita, 
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que
houver para ser dito no tempo após a morte, 
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada
da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente
nua da América pelo amor num grito de
saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com
que as cidades tremessem até seu último rádio, 
com o coração absoluto do poema da vida arrancado para
fora dos seus corpos bom para comer por
mais mil anos.

________________________

 

 

Outros textos de Allen Ginsberg:



Arte é ilusão, pois eu não ajo

Fico ou Parto - com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro fato.

Então enceno a esperança de que posso criar
Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.

Neste estado não mundano em que me movimento 
Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.



Um Supermercado na Califórnia 

Muito venho pensando em ti nesta noite, Walt Whitman,
enquanto caminho pela calçada sob as árvores, com uma incômoda
dor de cabeça e olhando a lua cheia.

Em meu faminto cansaço, e fazendo compras na imaginação, fui
ao supermercado de néon e frutas, sonhando com tuas listagens!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
nas compras da noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates e bebês nos tomates! - e, você, Garcia Lorca,
que estava fazendo diante dos melões?

Te vi, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,
apalpando as carnes do refrigerador e lançando olhares
aos jovens vendedores.

Te ouvi perguntar a eles todos: quem matou as costeletas
de porco? qual o preço das bananas? quem é meu Anjo, tu?

Vagueei por entre as prateleiras brilhantes de latas,
te seguindo e sendo seguido pelo detetive da casa, em minha 
imaginação.

Percorremos os grandes corredores, juntos em nossa solitária
fantasia, provando alcachofras, pegando todas as delícias congeladas, sem passar pela caixa.

Para onde estamos indo, Walt Whitman? Dentro de uma hora
as portas se fecham. Qual o caminho que tua barba hoje aponta?

(Toco em teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado - e me sinto absurdo.)

Iremos caminhar a noite por todas essas ruas solitárias? As
árvores acrescentam sombras às sombras, luzes apagadas nas casas, ambos estaremos sozinhos.

Andando e sonhando com a América perdida de amor, passaremos
por automóveis azuis no estacionamento a caminho de nosso solitário refúgio?

Ah, querido pai, de barbas cinzas, velho e solitário professor 
de coragem, que América te conheceu quando Caronte desistiu de 
empurrar seu barco e desceu-te na margem enfumaçada e ficou 
vendo o barco desaparecer nas negras águas do Letes?


Presença em Gales 

Neblina fina que sobe o morro e descamba 
rios de vento que alisam árvores. 
De cada 
nuvem que ondula explode e passa um mesmo giro fundo evapora 
por cima de samambaias que prendem 
a pedra verde em franja mansa 
vista através da vidraça enquanto chove no vale 
Bardo, ó ser, Visitacione, não fale 
nada ou então diga somente o que esse homem já viu num vale em Álbion 
um povo cuja ciência termina na coerência ecológica 
das sábias relações terrestres 
dez séculos de trama tecida de olhos bocas visíveis 
pomares da linguagem da mente humanifesta 
um cardo em simetria satânica uma planta eriçada 
florindo no chão veloz sobre um centro 
de leves margaridas irmãs angelicais como lampadas - 
Além de Londres sua torre de espinhos suas cenas simétricas 
de TV em cadeia & o Ser do Bardo barbado, onde lembrar 
um dia como hoje no morro a nesga de carneiros balindo árvores 
no ouvido do velho Blake & a velha calma de Words -
worth com os mudos pensamentos nela 
nuvens no esqueleto dos arcos passando em Tintern Abbey - 
Bardo Sem Nome do vasto assombro de tudo, rumor! 
Uma só coisa, o vale se esticava tremendo, o vento 
deitava em lençóis de musgo, 
grande força redonda que afogava a neblina na água fina vermelha 
dos riachos da encosta 
cujas ramas se torciam caladas 
calcadas em mistura granítica - 
e erguia também do chão o Espaço Nébulo erguia o braço 
das árvores e o capim do instante 
mantinha erguidos os carneiros parados 
alçava, numa onda solene, o dorso verde 

Sólido pedaço no Céu, gota de vale, 
toda a imensidão diminuta rolando em Llanthony Valley,
em toda a área da Inglaterra coesa, vale em vale, sob o risco 
das doces toneladas do oceano do Céu 
Céu que se equilibra num fiapo de grama 
urro do morro vento lento e esse corpo 
um Ser, um perto Algum, visão da encosta 
cosendo em brilho e calma os equilíbrios fluindo, 
um gesto vara o escuro céu-chão e são milhões de margaridas que o fazem, 
é o gesto de uma Força Serena que induz o mato molhado 
até a rama mais distante de neblina fina aspergida 
na corola do morro - 
Nenhuma imperfeição no morro em flor 
Os vales respiram, céu e terra andam juntos 
margaridas engolem polegadas de ar verduras vergam 
átomos piscantes vegetam no capim em mandalas 
manchas espalhadas ruminam com olhos de carneiro vazios 
cavalos dançam na chuva quente 
árvores ladeiam canais em rede viva nos campos 
ermos paredões frutificam 
seios de espinheiros desabrocham colinas 
passam roceiros ermos cuspindo samambaias e ervas - 
passar entrar cair rolando no oceano de sons, rajadas 
cair no chão ó mãe ó grã-Mãe Úmida, jamais uma lesão em teu corpo! 
Pare vendo de perto, nada é imperfeito no mato, 
todaflor cada olhoflor um Buda, e a história se repete, 
a alma multiforme ajoelha 
perante botões quentes inquietos erectos, sinos 
dobrados no caule trêmula antena, 
& olhe vendo de dentro nos carneiros que espiam 
paradamente respirando sob folhas e gotas - 
Deito e misturo a barba no morro em pelo viscoso 
cheirando ileso o chão-vagina provando 
úmidas emanações violetas de penugem de cardo -
Um ser tão vasto, em tão vertiginoso equilíbrio, que seu sopro mais fino 
afasta no assoalho dos olhos a flor mais quieta do vale 
treme em rendas de águateias na lãcapim dos carneiros 
suspende copas e raízes, pássaros na grande corrente 
levando o mesmo peso na chuva, a força eclusa 
gemendo chamando terra 
coração, junção de espantos. 
O grande mistério é o não-mistério 
os sentidos correspondem aos ventos 
o visível é visível 
o vale em ondas anda com uma barba de chuva 
átomos cinzentos desaguam na cabala do ar. 
A mente está de pernas cruzadas 
imóvel numa pedra e respira 
está elástica no capim mole e respira 
na beira de margaridas brancas na estrada. 
O sopro do Céu desce ao umbigo, 
minha própria simetria descamba, sopram samambaias rasgadas 
cujas frondes me aspiram, sopra o mesmo agora 
vento de Capel-Y-Ffn, sons de Aleph e Aum 
na vegetação dos ossos 
na massa de cartilagens-paisagens 
crânios e colinas iguais numa só Álbion. 
Que foi que eu vi? Detalhes. A 
visão do grande Um pluriforme - 
marcas de fumaça subindo 
no calor silencioso da casa 
marcas de uma noite que embarca 
vazia de estrelas 
porém ainda molhada de gestos no céu preto dos ventos. 

Tradução de Leonardo Fróes



Entrevista com Allen Ginsberg



A Folha publicou entrevista inédita com o poeta beat norte-americano morto dois dias antes, aos 70, em Nova York. 

Eduardo Simantob da Publifolha



A morte de Allen Ginsberg, ocorrida anteontem, não deixa lacunas. Durante meio século o escritor americano dedicou-se não só a uma extensa obra poética, como também ao ensino da literatura como ato de liberdade e militância político-ambiental. E a mensagem já está dada. Ginsberg escreveu bastante, falou mais ainda e participou combativamente das transformações da América do pós-Guerra. Lutou contr

a a censura, combateu a proibição do LSD (1966), protestou contra a guerra do Vietnã, contra as armas nucleares e militou pela preservação da natureza.

Em 1994, Ginsberg foi procurado pela Folha para falar sobre o escritor William Burroughs, que na época completava 80 anos de idade. A entrevista, inédita, acabou se estendendo à sua poesia, ativismo e ecologia. A seguir alguns trechos.

Folha - Como o senhor resumiria a importância de William Burroughs na literatura americana?

Allen Ginsberg - Burroughs tem uma influência na cultura dominante americana muito maior do que ele mesmo imagina. Devido ao processo contra seu livro ''Almoço Nu'', ele abriu as portas da censura para que novos autores escrevessem o que quisessem. Muitos dos seus temas continuam e continuarão importantes, como controle do pensamento, drogas, sexualidade gay, Estados policiais etc. Mesmo na cultura pop, bandas como Steely Dan e Soft Machine devem seus nomes a títulos de livros seus e, mais ainda, à técnica dos cut-ups (colagem de textos e imagens não tão ao acaso, desenvolvida por Burroughs e pelo pintor Brion Gysin nos anos 60).

Folha - E o senhor experimentou também os cut-ups?

Ginsberg - Só no começo, mas essa técnica foi incorporada por vários escritores, como Dennis Cooper e Hunter Thompson, sem falar dos músicos. Os garotos do U2 outro dia vieram me mostrar um videoclipe (da turnê ''Zootour'') influenciados pelo cut-up.

Folha - Mas o cut-up não é uma técnica original, os dadaístas e surrealistas do início do século...

Ginsberg - Sim, eles faziam algo que se chamava ''corpos estranhos''. Dois artistas trabalhavam numa mesma tela sem saber o que o outro fazia, depois juntavam tudo. Mas o cut-up não é um processo inconsciente, é uma forma de dar sentido a esse inconsciente.

Folha - O senhor trabalhava o cut-up na sua poesia?

Ginsberg - Não exatamente. Eu também fotografo e desenho. Nas fotos eu escrevia notas sobre as coisas que estavam acontecendo quando foram tiradas. Ao juntá-las tenho toda uma história contada de um modo não usual.

Folha - Hoje os ''beats'' estão virando moda na América, a mídia dando às suas obras um espaço até hoje inédito. Isso é uma surpresa?

Ginsberg - Não. Creio que a obra ''beat'' é tão forte que já pode ser tomada como referência literária. Nós tocamos em questões permanentes: o império americano, ecologia, revolução sexual, censura. Também há a questão do ''terceiro caminho'', nem comunismo nem capitalismo, que pregávamos enquanto os intelectuais procuravam extremos do marxismo ou do anticomunismo. Nossa preocupação é alterar estados de consciência e achar soluções ecológicas, não ideológicas.

Folha - Mas isso também pode levar a interpretações variadas do que se diz ou escreve, não?

Ginsberg - Meu negócio é poesia. Ao produzir não posso controlar o que as pessoas farão depois, dizer o que elas devem fazer com suas próprias mentes. E nem gostaria, eu seria um ditador. O melhor que posso fazer é propor alternativas e me abrir às pessoas que queiram aprender comigo.

Folha - E qual é sua principal preocupação hoje?

Ginsberg - O problema básico é o da hipertecnologia consumindo o planeta numa escala que destruirá as possibilidades humanas. Li hoje uma entrevista de Jacques Cousteau (oceanógrafo francês) em que ele diz: ''Estou agora lutando pela minha própria espécie, buscando conceitos para as gerações futuras''. Para ele, o divórcio entre a humanidade e a natureza é irreversível, mas o homem deve se lembrar que ainda depende da natureza. Mas, como eu, ele tem esperança no futuro.

Folha - E há futuro na literatura americana?

Ginsberg - Há um presente. Quem estiver escrevendo, em qualquer língua, está levando a literatura para frente, mas deve sempre se lembrar que a imortalidade só vem depois.


Sutra do Girassol 



Caminhei nas margens do abandonado cais de lata onde outrora 
descarregavam banana e fui sentar na sombra enorme de uma locomotiva lá perto 
para olhar e chorar o sol morrendo em ladeiras sobre as casas todas iguais. 
Jack amigo Kerouac sentou-se ao lado no ferro de um mastro roto partido 
e a gente caiu na maior fossa do mundo, os dois ilhados, dois contidos 
na rede das raízes de aço, 
e eu e Jack pensando os mesmos pensamentos da alma. 
No rio a correnteza de óleo refletia o céu rubro, o sol caía 
pelas alturas finais de San Francisco, sem que houvesse 
peixe nessas águas, sem que houvesse um ermitão nas montanhas, só a gente 
com olhos de ressaca e remela, feito vagabundos, cheios de astúcia e cansaço. 
Olha só um girassol, Jack então disse, e havia o vulto inerte e cinzento 
seco, do tamanho de um homem, recostado 
num monte milenar de serragem. 
- Eu pulei de alegria e era o primeiro girassol de minha vida, eram memórias 
de Blake - essas visões - o Harlem 
e os rios do inferno-leste, sanduíches indigestos trotando 
um ranger de pontes, carrinhos de bebê encalhados, esquecidos 
pneus de bojo negro careca, penicos 
& camisas-de-vênus, o poema da margem, canivetes, nada inox, só o mofo 
o lixo de tantas coisas cortantes cujo fio passava 
para o passado - 
e o cinzento girassol se equilibrando ao sol-posto, 
desmanchando-se abatido na invasão da fuligem, da fumaça, do pó 
de velhas locomotivas no olho - 
corola e também coroa com as pontas amassadas virando, com sementes 
despencando do rosto, rompendo em breves dentes um dia 
claro, raios de sol grudando em seu cabelo riscado 
como uma exangue teia de aranha de arame; 
caule com braços-folhas jogados, os gestos da raiz de serragem, 
pedaços de reboco minando nos galinhos queimados 
e uma mosca estagnada no ouvido, 
você de fato era uma incrível coisa imprestável, ó meu girassol minha 
alma, e como eu te amei então! 
sujeira não era parte do homem, era a parte da morte e das locomotivas 
humanas,
simples roupa empoeirada, o simples véu da pele férrea, a cara 
da fumaça, as pálpebras da escura miséria, a mão 
ou falo ou tumor mortiço do imundo motor moderno industrificial disso 
tudo, o bafo da civilização poluindo 
tua coroa muito louca de ouro - 
esses turvos pensamentos de morte, a grande falta 
de amor em fins e olhos tapados, raízes abafadas em areia 
e serragem, os dólares raspantes elásticos, o couro das máquinas, as 
tripas enroscadas de um carente carro que tosse, as solitárias 
latas baratas com línguas rotas de fora, e o que mais seja, a cinza 
que escorre pela boca na ereção de um charuto, a boceta 
de um carrinho de mão, ou os seios acesos de viaturas lácteas, o rabo gasto 
que as cadeiras expelem, o esfíncter dos dínamos - tudo 
isso embolado nas raízes-múmias - 
e você aí de pé na minha 
na tarde da minha frente, a sua glória em sua forma! 
beleza perfeita, um girassol! uma tranqüila e girassol existência 
excelente e perfeita! um olho doce natural para a melancolia da lua 
nova, desperto vivo excitado 
sacando no crepúsculo sombra a brisa mensual de ouro aurora! 
enquanto você lançava blasfêmias 
para o céu da via férrea e sua própria floralma, 
quantas moscas zumbiram na sua extrema imundície 
sem ligar para nada? 
Quando, flormortapobre, você esqueceu que é uma flor? 
quando olhou sua pele e decidiu que era a velha 
suja locomotiva impotente? o fantasma de uma 
locomotiva? o espectro e sombra de uma já poderosa 
locomotiva americana maluca? 
não, girassol, você não foi locomotiva nunca, você foi sempre um girassol! 
você, locomotiva, você é o motivo louco de sempre, a locomotiva! 
pensando isso peguei o grosso girassol esqueleto e o finquei a meu lado 
como um cetro 
fiz o meu sermão à minha alma, e também à de Jack, e tambérn à de todos 
que ainda queiram ouvir: 
Não somos a sujeira da pele, não somos nossa locomotiva medonha triste 
poeirenta com ausência de imagem, nós somos todos uns lindos girassóis 
por dentro, somos sagrados por nossas próprias sementes & 
peludos pelados dourados corpos de ação virando girassóis ao crepúsculo 
loucos girassóis formais e negros que esses olhos espiam 
na sombra da locomotiva maluca margem beira 
San ladeiras Francisco 
tarde de lata 
sol-posto sentar-se vision.

Tradução de Leonardo Fróes

Almanáará    Bio    Trovadores   Pantheon   Nóis   Dona Sophia   VAza-Barris    SAct-ça-Pererê